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Marcas da Ignorância, na Pele e na Alma
   Felipe  Camelo  │     30 de outubro de 2018   │     17:25  │  2

 

O Brasil é 1 país fundado por escravos.

Não somos nós que estamos dizendo, são os livros de história. Nosso país, de faixa territorial enorme, a nível continental, nunca poderia ser colonizado por 1 nação com população de pouco + de 2 milhões de habitantes como Portugal. Faltaria recurso humano, faltou recurso humano.

Com isso, o tráfico de escravos virou 1 negócio superlucrativo pr’os europeus, que poderiam vendê-los facilmente nos portos brasileiros, desesperados por mão de obra africana. E isso é 1 detalhe importante: a maior parte dos escravos vinha da África, negociados com colonizadores ingleses e transportados através de navios negreiros.

Fotos: Reprodução

Claro que os nativos indígenas também foram utilizados de maneira escravocrata, mas estes encontraram nos missionários religiosos grandes aliados que se mostravam oposição a prática. O mesmo não pode ser dito dos negros. A repulsa histórica provocada por preconceito racial não lhes permitiu serem “dignos de pena”, nem ao menos dos clérigos.

A escravidão permaneceu em solo tupiniquim por pelo menos 400 anos.

Seres humanos como você e eu foram submetidos às + brutais formas de humilhação já cometidas pela humanidade. Tratados como animais, os africanos trabalhavam muito sem receber absolutamente nada em troca, a não ser trapos como vestuário e comida de péssima qualidade; eram obrigados a dormir em senzalas escuras, úmidas e sem nenhuma higiene; eram acorrentados, pra não poderem fugir; e eram amarrados e açoitados com chicote caso desobedecessem, trabalhassem abaixo da expectativa, ou se os capitães do mato e senhores de engenho simplesmente estivessem com vontade, afinal, eles podiam fazer o que quisessem com suas propriedades.

Anúncios classificados – “Leilão de móveis e escravo, venda de armazém, procura-se criada”. Publicado no jornal santista “O Mercantil”, ano I, edição 7, de sábado, 20 de julho de 1850, página 4. Acervo Memória Biblioteca Nacional Digital.

Os escravos também eram obrigados a aprenderem a falar português, seguirem apenas a religião católica e se desfazerem de suas culturas típicas. Obviamente isso não impedia que eles praticassem rituais de matrizes africanas sempre que tinham 1 brecha e persistissem em manter seus costumes vivos. Portanto, não se assuste em saber que a cultura brasileira tem muito + influência dos escravos do que dos nossos colonizadores europeus.

A capoeira, o candomblé, o acarajé, feijoada, angu, vatapá, cachaça, inhame, maxixe, quiabo, os gêneros musicais, são algumas das heranças deixadas pra nós pelo povo africano trazido à contragosto pra cá.

O Brasil foi 1 dos últimos países a abolir a escravidão, e por livre e espontânea pressão dos europeus. Aconteceu em 1888 com a Lei Áurea, que apesar de declarar proibida toda atividade escravocrata em território nacional, não garantiu nenhuma fiscalização nos engenhos. Ou seja, funcionava no papel, mas na realidade o trabalho não remunerado e abusivo continuou por muitos anos. Além do +, a lei não dava suporte algum aos escravos libertos. A maioria, sem moradia, foi viver na rua, e os que não conseguiam emprego (o + provável, afinal, existe 1 coisa chamada “preconceito”) eram obrigados a roubar pra sobreviver. 1 fardo carregado de geração em geração.

As consequências da escravidão reverberaram na história e sentimos os efeitos colaterais até hoje. Conforme dados do IBGE, até 2014, 76% dos + pobres no Brasil eram negros.

E numa população majoritariamente afro-descendente, o racismo, lamentavelmente, ainda existe.

“Quando seu filho absorve o personagem! Vamos abrasileirar esse negócio! #Escravo”, foi o que publicou no Instagram a tal da Sabrina Flor ontem, dia 29, juntamente com fotos de seu filho de 9 anos “fantasiado de escravo”. A mulher, branca, da classe média alta de Natal, no Rio Grande do Norte, vestiu o menino desta maneira pra ir à festa de Halloween na escola em que estuda. Correntes, farrapos e marcas de chicotada reforçam a caracterização.

Tirem suas próprias conclusões.

“Vamos abrasileirar esse negócio!” Parece até que ela tá falando de Carnaval, de Bossa Nova, de Forró, de Futebol. Agora a escravidão é patrimônio cultural brasileiro?!??!?!

Mas não para por aí!!! Como se não bastasse, a figura ainda solta a seguinte declaração no Twitter:

Pelo visto, a “mamãe do ano” aprendeu história nos mesmos livros que alguns internautas de movimentos recentes aprenderam que a terra é plana e que não houve Ditadura Militar no Brasil. Ignorância ou desonestidade intelectual? Vai saber. As pessoas são capazes de qualquer coisa pra provar que estão certas.

Mas o que também chama atenção é a afirmação seguinte sobre o famigerado “17” e no que isso implica, mas não vem ao caso. O que importa é que não interessa se você votou em A ou B. Racismo é crime, brincar com algo como a escravidão e usar seu filho inocente pra tal, é no mínimo de 1 mal gosto terrível. Você pode ser da esquerda, da direita ou da traseira, É CRIME!!!

A repercussão foi tão grande de ontem pra hoje, com 1 resposta tão negativa, que ela teve de mudar o discurso logo depois. “Queria somente pedir desculpas pelo fato! Jamais foi minha intenção ofender alguém, estou extremamente arrependida por tudo que aconteceu e me sentindo MUITO mal com os xingamentos e ameaças horríveis que estão me mandando. Desculpa a todos, do fundo do meu coração! #paz”, disse a infeliz no Twitter antes de apagar todas as redes sociais.

A repercussão tomou outras proporções e a escola do garoto também se pronunciou:

“Lamentavelmente, a escolha do traje para participação do Halloween, feita pela família do aluno, tocou numa ferida histórica do nosso País. Amargamos as sequelas do trágico período da escravidão até os dias de hoje. O colégio CEI não incentiva, nem compactua, com qualquer tipo de expressão de racismo ou preconceito, tendo os princípios da inclusão e convivência com a diversidade como norte da nossa prática pedagógica.”

Por último, a Promotoria de Justiça de Defesa da Criança e do Adolescente de Natal iniciou investigação na tarde de hoje e afirmou que vai intimar a mulher a prestar esclarecimentos. O procedimento vai transcorrer em segredo de Justiça por envolver 1 criança, conforme previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Lembrando que o racismo é considerado no Brasil 1 crime inafiançável. Esperamos que as autoridades lidem com o caso da melhor forma possível, que a mãe seja presa se isso se configurar realmente como crime e, se não, esperamos que ao menos ela tenha recebido a lição. A lei pode até perdoar, mas a internet não perdoa.

A escravatura existiu, não só aqui no Brasil, mas no mundo todo. Ela não é 1 piada, ela não é 1 fantasia de Halloween, ela matou e mata pessoas inocentes até hoje. Banalizar o sofrimento dos outros pra sua diversão é segurar o chicote do açoite.

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Raça Única, Humana
   Felipe  Camelo  │     10 de setembro de 2014   │     16:00  │  0

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Reprodução

Apaixonados costumam postar fotos juntos nas redes sociais o tempo todo e isso é algo consideravelmente normal, só que que o que deveria ser comum se tornou caso de polícia. Há alguns meses 1 jovem casal de Muriaé, em Minas Gerais, foi vítima de comentários racistas após postarem 1 selfie e isso tem repercutido até então. O fato dela ser negra e seu namorado branco gerou 1 sequência de comentários ofensivos e maldosos. (mais…)

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