Vencedora, nos Gramados e na Vida
   Felipe  Camelo  │     25 de outubro de 2018   │     17:06  │  0

Como é de conhecimento geral, o futebol é o esporte + popular do Brasil. Claro, o masculino, se a gente for falar do feminino… é outra história…

Futebol e mulher nunca pareceram se encaixar na mesma frase no nosso dialeto, a não ser que esteja no contexto de 1 comercial de cerveja. E isso fica bem claro se voltarmos 1 pouco ao passado e analisarmos a trajetória do esporte em cenário nacional.

Foto: Reprodução

As 1ªs bolas de futebol foram trazidas diretamente da Inglaterra pelo paulista Charles Miller em 1895. Não demorou muito pra que os brasileiros se engraçassem com a dinâmica futebolística e formassem seus próprios times e ligas. Como grande parte das 1ªs equipes foram criadas por estrangeiros, a maioria delas era formada por aristocratas caucasianos.

Foto: Reprodução

Os negros demoraram pra conquistar o direito de bater 1 bolinha, mas a luta nem se compara com a das mulheres. Afinal, o lugar delas era na arquibancada, torcendo pr’os maridos. Tocar numa bola era considerado deselegante, antiquado, e por isso, a força feminina no mundo da bola começou mesmo na periferia, que na verdade pouco se importava com as convenções de 1 esporte recém-chegado. Claro, isso não ajudou a aumentar a popularidade da vertente diante da alta sociedade.

Pr’os praticantes e torcedores da época, as mulheres que jogavam eram “fedorentas”, “sem classe”, ente outros adjetivos pouco favoráveis. Obviamente isso não impedia que houvessem partidas mistas já em meados de 1908, ainda que estas não fossem muito usuais, nem muito bem quistas.

Pra se ter 1 ideia da segregação, por muitos anos o 1º registro de 1 partida oficial feminina aconteceu num evento beneficente em 1913. Isso até descobrirem que, na verdade, algumas  das “jogadoras” eram jogadores do Sport Club Americano devidamente travestidos, misturados a algumas senhoritas.

A gafe só foi corrigida em 1921, em partida entre mulheres dos bairros Tremembé e Cantareira na zona norte de São Paulo. Esta chegou até a ser noticiada pelo jornal A Gazeta, já que se tratavam de madames da alta sociedade. De toda forma a farra não demorou muito já que em 1941, em pleno “Estado Novo”, o então ditador Getúlio Vargas proibiu toda a “prática de esportes incompatíveis com a natureza feminina”, incluindo, claro, o futebol.

O 1º time de futebol feminino brasileiro da história, o Araguari Atlético Clube. Foto: Reprodução

O decreto só seria revogado em 1979. Este meio tempo impediu que o futebol feminino se difundisse de forma apropriada no Brasil e os efeitos são sentidos até hoje. Poucos investimentos, pouca visibilidade e muito preconceito. Mas a repressão também deu voz à revolução, já que em 1958, à margem da lei, foi fundado o 1º clube feminino brasileiro, o Araguari Atlético Clube. Não havia 1 liga pra disputar, nem adversários claros, mas as garotas se tornaram atração país afora, encerrando as atividades apenas 1 ano depois por pressão de grupos religiosos (!!!).

Ainda assim, este espírito de subversão, de ir além, de quebrar paradigmas, permanece na categoria feminina. E a repressão também.

Aqui em Alagoas nós temos o maior exemplo. E bota exemplo nisso!!!

Claro que estamos falando da jogadora Marta, que saiu da cidadezinha de Dois Riachos ainda adolescente pra ganhar o mundo com 1 bola no pé. Jogadora pra lá de reverenciada, com passagens por grandes clubes brasileiros, suecos e estadunidenses, onde colecionou vitória em todos. Vencedora de 2 Jogos Pan-Americanos pela seleção brasileira, onde inclusive se tornou a maior artilheira de todos os tempos, contando a modalidade feminina e masculina, com 117 gols.

Considerada por muitos a maior jogadora do futebol feminino de todos os tempos!!!

Foto: Lucas Figueiredo/CBF – Reprodução

Esta é Marta, que recentemente, com 32 anos, bateu recorde ganhando sua 6ª Bola de Ouro, certificado de melhor jogadora do mundo. 1 feito inédito no esporte. Por estas e outras, a alagoana foi homenageada pela CBF no começo desta semana. Ao chegar na Casa do Futebol Brasileiro foi recepcionada por centenas de crianças que estavam lá apenas pra conhecer a ídola de perto. Na decoração, os 6 troféus conquistados e cedidos pela própria pra ficarem na sede da Confederação Brasileira de Futebol até o fim de 2018.

Apenas + 1 conquista pra 1 mulher cheia de vitórias? Não é bem assim.

Foto: Reprodução

Marta foi criada no interior de Alagoas, onde desde pequena tomou gosto por 1 esporte dominado não só majoritariamente por homens, mas também por muito (MUITO) machismo, como a gente já viu. Poucas meninas são incentivadas a largar as bonecas e as panelinhas, então o jeito era jogar com os meninos, que por vezes não admitiam que ela jogasse melhor que eles. Ela não era aceita, pelo contrário, era humilhada, e diziam até pra ela parar de jogar.

A discriminação numa cidade pequena pode ser tóxica e desanimadora. Por sorte, seu talento foi reconhecido cedo. Das divisões de base do CSA, Marta partiu ainda adolescente pra atuar no time profissional do Santa Cruz e logo depois no Vasco da Gama. Claro que no Brasil isso não quer dizer muito, já que os salários da divisão feminina nem se comparam com os da masculina.

Foto: Reprodução

Foi a Seleção Brasileira que abriu as portas pra jogadora. Com apenas 17 anos, Marta começou a chamar a atenção de times estrangeiros, e em 2004 “fugiu” pra Suécia, onde jogou no Umeå IK até 2009, quando foi pro Los Angeles Sol, dos Estados Unidos – ambos em países onde o futebol feminino é realmente valorizado e difundido.

A Rainha Marta, como é conhecida, ainda voltou a jogar em solo brasileiro pelo Santos, mas nitidamente prefere atuar em clubes internacionais, tanto que, entre indas e vindas na ponte aérea “Suécia – Estados Unidos”, hoje mantem residência fixa na Flórida, onde atua pelo Orlando Pride.

E, se querem saber, ela não está errada. Vivemos num país em crise política, social e econômica, num período de incertezas, onde direitos básicos ameaçam serem retirados do cidadão comum ao passo em que a intolerância cresce. Coloque nesta equação também, os direitos femininos – o Brasil é o 5º país que + mata mulheres no mundo!!! Não, feminicídio não é “coitadismo”, mas este pensamento se reflete em diversos âmbitos de nossa sociedade: na educação, na política, no esporte…

Por isso, não podemos subestimar 1 conquista tão expressiva quanto a de Marta, porque por maior que sejam as dificuldades, ela venceu. O resultado disso foi 1 maior abertura pr’o futebol feminino nacional, mesmo que ainda seja muito pouca, e a influência e representatividade pra milhões de meninas que sonham com dias melhores.

+ 1x, esta é Marta, 1 mulher que se sobressaiu num mundo de homens.

Marta sendo nomeada embaixadora da Onu Mulheres por ser “1 modelo poderoso de determinação e coragem”. Foto: Reprodução

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